ETC! - Disco da Semana: Coldplay - Mylo Xyloto (2011)



Em 1991 grandes expectativas cercavam o álbum Achtung Baby, do U2 antes de seu lançamento. Já era possível dizer que, até aquele momento, Bono Vox e cia desfrutavam do sucesso comercial e aclamação da crítica  alcançada em seus trabalhos anteriores como  The Joshua Tree (1987). Então o que faltava ao U2? Faltava romper com tudo que já tinha sido feito antes. Botaram a árvore de Josué abaixo, numa tentativa bem sucedida de se reafirmar como banda, o que consolidou seu sucesso em escala global. A ousadia foi recompensada e Achtung Baby entrou para história.

Calma, calma, você não leu errado. Não vamos analisar um álbum do U2. O recém lançado Mylo Xyloto, do Coldplay , é o disco semana no ETC. É que o quinto álbum de estúdio da banda de Chris Martin - que completa 15 anos de fundação em 2011, mesma idade que o U2 tinha quando Achtung Baby veio ao mundo -  foi lançado num contexto de grandes expectativas - e grandes receios - muito parecido com o que o U2 experimentou há 20 anos atrás. Agora é a vez do Coldplay, uma banda que já nasceu grande, provar que merece o lugar conquistado.

É inevitável comparar as duas bandas. Além da fama de bom moço e gosto pelo ativismo social, Chris Martin parece ser o herdeiro de Bono Vox na predileção por shows em grandes estádios. Mylo Xyloto parece ter vindo para cumprir esta função. Músicas de refrão forte, versos marcantes e os característicos “ôôôs” se fazem mais presentes do que nunca. O Coldplay também precisou buscar muitas influências para elaborar este novo disco, vide as referências a outros artistas por todo lado e os samplers que aparecem em diversas faixas. Originalmente concebido para ser um álbum mais acústico, o disco foi ganhando proporções grandiosas ao longo do processo de produção. Produção esta comandada por Brian Eno, que curiosamente, ficou famoso por seu trabalho com o U2 nas fases Joshua Tree e Achtung Baby.

Quando Every Teardrop is A Waterfall, o primeiro single de Mylo Xyloto, foi lançado, os sintetizadores de euro dance não deixaram dúvida: O Coldplay abraçou de vez o pop. Em seu novo trabalho, o Coldplay mantem os conceitos de art rock experimentados em Viva La Vida Or Death And All His Friends (2008) e se distancia da sonoridade mais crua de seus primeiros trabalhos (Parachutes, de 2000 e A Rush Of Blood To The Head, de 2002), o que pode ter decepcionado alguns fãs mais conservadores.

Inspirado no Rosa Branca, movimento intelectual que fazia uma resistência ao nazismo de forma pacífica durante a segunda guerra mundial e na arte de rua novaiorquina dos anos 70, o novo disco do Coldplay é um álbum conceitual, ou seja, concebido para que todas as faixas narrem uma mesma história. Nele, Chris Martin conta história de amor de Mylo e Xyloto, um casal que vive num ambiente opressor, mas usa a paixão como arma contra as adversidades.

O projeto inicial era de gravar um filme animado que contasse a história dos personagens e que servia de ilustração para as faixas. A idéia foi descartada, mas parece que daí surgiram as faixas instrumentais que interligam as canções em Mylo Xyloto.

A faixa-título, de apenas 42 segundos, nos introduz a um universo multicolorido e esperançoso, clima que acompanhará o ouvinte através de todo o álbum. Em seguida temos a pulsante Hurts Like Heaven, uma das músicas mais animadas e dinâmicas já lançadas pelo quarteto. É uma canção de fácil digestão e que funciona na primeira ouvida. Há nela um certo ar oitentista que remete às fases mais alegres do The Cure (  que inclusive tem uma famosa canção chamada Just Like Heaven).



Paradise se inicia com um arranjo de cordas que lembra a trilha sonora de filmes da Disney, mas que logo é substituído por teclados de hip hop. É música do cd que melhor faz a comunhão de elementos do “novo” e do “velho” Coldplay. Radiofônica por natureza, a faixa foi concebida para ser entoada por multidões.



Contrastando com a tranqüila Paradise surge a explosiva Charlie Brown, 4ª faixa do cd. A canção é um hino instantâneo, mais uma feita para as grandes arenas. Escrita após Chris Martin voltar de um show de Bruce Springsteen, tem referências claras a Dancing In The Dark, do cantor americano.

Após isso vem a calma e intimista Us Against The World, a música com os versos mais profundos de todo o disco. A bela balada folk fala sobre o sentimento de invencibilidade que se tem quando se ama alguém. A canção é bem crua e direta. Destaque para o refrão, onde Chris Martin divide os vocais com o baterista Will Champion.

Em seguida mais um interlúdio, MMIX, que serve para fazer a ligação com Every Teardrop Is A Waterfall.
A ousada faixa dividiu opiniões entre os fãs. Every Teardrop ... reforça os ares épicos do disco ao cantar sobre uma revolução comandada por crianças que dançam e celebra de forma metalingüística a euforia de ouvir uma boa música (“i feel my heart start beating to my favourite song”).

Urgente e soturna, Major Minus faz um contraponto a alegria de Every Teardrop.... A letra parece escrita por George Orwell, pois lembra o roteiro do livro 1984. Nela os personagens estão em fuga e percebem que estão sendo observados a todo instante. A faixa tem o melhor solo de guitarra da história do Coldplay. The Edge se sentiria orgulhoso (ou plagiado).


Em U.F.O, Chris Martin visita o folk mais uma vez. Na curta e sensível balada de voz e violão, o personagem da história pede ajuda a Deus para decidir qual caminho seguir. É um prenúncio de que a relação entre Mylo e Xyloto está abalada, o que se confirma em Princess of China.

O dueto com Rihanna provavelmente foi uma jogada de marketing para alavancar ainda mais o Coldplay nas paradas de sucesso, mas independente disso, Princess of China surpreende quem a ouve sem preconceitos. Nela, o casal principal se mostra desiludido com o relacionamento e magoados um com o outro. Descaradamente eletrônica, a faixa tem sintetizadores inconstantes e um “ôôô” (mais um) que pode funcionar muito bem ao vivo.

Up In Flames é a calmaria depois da tempestade. A batida de trip hop e um piano minimalista acompanham os lamentos de Martin sobre um amor perdido.

Na barulhenta Don’t Let It Break Your Heart, o Coldplay evoca o U2 mais uma vez, mas tem uma melodia um tanto comum. A faixa menos criativa de Mylo Xyloto.

O último suspiro do disco é a etérea Up With The Birds. A faixa faz referências a letra de Ahnthem, de Leonard Cohen, e fecha muito bem o álbum com uma mistura de Folk, New Age e Rock. Quer saber se Mylo e Xyloto ficam juntos? Então ouça o disco. Eu é que não vou estragar a história contando o final!

Neste ousado registro, com início, meio e fim, o Coldplay entregou um álbum de verdade, com canções que se interligam e se completam.  

Ser a maior banda do mundo não é tarefa para qualquer um e o Coldplay continua tentando chegar lá.  Mylo Xyloto pode ter cometido alguns pequenos tropeços, afinal ele é fruto de uma caminhada por percursos até então desconhecidos, mas é um disco legítimo e sincero.  O último verso da última música diz o seguinte: "good things are coming our way" ("boas coi­sas estão vindo em nossa dire­cão"). Pode ter certeza que sim, Coldplay.


Nota: 7,5
Ouça: Hurts Like Heaven, Us Against The World e Princess Of China

Por João Vitor Figueira


2 comentários:

joao disse...

Exelente critica, concordo em todos os pontos!
Us against the world é com certeza a melhor musica!

TV UERJ Online disse...

Exelente crítica, João Vitor. Não curto muito a banda, mas darei uma chance ao cd (ainda mais agora que sei o que é um disco conceitual). Pena que não é melhor que Foo Fighters.
Ass: Integrante da equipe.

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